Por um ensino mais dinâmico

Professores de escolas públicas fazem de tudo para tornar suas aulas mais atraentes e divertidas

Por um ensino mais dinâmico
Há professores que levam sua missão de ensinar muito a sério. Para eles, vale a máxima de se melhor é possível, bom não é suficiente (Foto: Pixabay)

Seja em turmas grandes ou pequenas, com alunos mais novos ou mais velhos, há professores que levam sua missão de ensinar muito a sério. Para eles, vale a máxima: “se melhor é possível, bom não é suficiente”. Por isso, eles correm atrás de técnicas, cursos, parcerias e até doações para conseguirem criar uma sala de aula inovadora e atraente. O O&N conversou com alguns professores de escolas públicas para mostrar que é possível sim inovar, apesar de todas as dificuldades do ensino público brasileiro.

Ensino híbrido na escola

eric

Eric Rodrigues é professor de História há 3 anos. Ele dá aulas em três escolas municipais da zona norte do Rio de Janeiro. Em 2014, ele começou a perceber que não estava conseguindo fazer com que suas aulas fossem tão envolventes como imaginava que seriam antes de entrar na profissão. Por isso, começou a buscar formas de melhorar suas aulas. Depois de participar de um workshop em São Paulo com o professor de Havard Michael Horn, especialista em ensino híbrido (forma de integrar ferramentas digitais ao ensino, mesclando momentos de aprendizagem individual com em grupo), ele foi selecionado em uma chamada pública para participar de um grupo experimental de estudos sobre o ensino híbrido, fruto de uma parceira do Instituto Península com o Instituto Lemann. A experimentação deu tão certo que virou um curso, atualmente, disponível online e de forma gratuita.

Então, o professor de História resolveu adotar definitivamente o modelo em suas aulas. Na época ele trabalhava apenas em uma escola que já tinha computadores, comprados pela prefeitura. Quando passou a trabalhar em outras duas escolas, a situação mudou, porque elas não tinham o equipamento necessário. Depois de um apelo nas redes sociais, ele conseguiu 15 tablets por doações. Só que os recursos precisam estar em modo offline, porque em nenhuma das escolas há uma internet estável ou rápida.

Na época do curso, ele aprendeu conceitos básicos para criar vídeos para o Youtube. E assim nascia oMistoria, seu canal na plataforma gratuita. Eric produziu um material completo seguindo as recomendações curriculares, usando imagens e mapas para ilustrar os períodos históricos e uma explicação narrada. No começo, a ideia do canal era para ser utilizado na chamada “técnica de aula invertida”, no qual os alunos aprendem o conteúdo em casa e praticam em sala. Ele usou a técnica com sucesso durante algum tempo, mas teve que parar, porque o número de turmas cresceu consideravelmente, totalizando cerca de 350 alunos, e alguns deles não tinham acesso à internet em casa. Atualmente, Eric usa todo o material em sala. O tradicional método quadro-professor ainda é usado, mas em menor quantidade, cerca de 10 a 20% de seu tempo semanal com os alunos.

Os alunos aprovam o método. “Quando chego com 15 tablets ou computadores, realmente, é uma quebra forte de rotina e eles tendem a ter mais atenção e interesse.” Quanto ao desempenho, Eric diz que a melhora foi visível, houve uma grande redução de alunos em recuperação.

Alunos em idade avançada

Segundo o Better Life Index (índice para uma vida melhor, em tradução livre), da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), no Brasil, apenas 46% dos adultos entre 25 e 64 anos completam o Ensino Médio. Alguns só têm a oportunidade de completar seus estudos bem mais tarde. A professora Veronica Ferreira sabe bem o que é isso. Professora há 20 anos, atualmente, dá aulas em dois projetos para alunos com idade avançada em escolas municipais no bairro de Pedra de Guaratiba, no Rio de Janeiro. No Projeto Acelera, ela dá aulas para alunos defasados, ou seja, que repetiram alguma série.  Já no Programa de Educação de Jovens e Adultos (PEJA), ela ensina jovens maiores de 17 anos e adultos.

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A professora busca propostas diferentes, seja a partir da tecnologia, de experimentos em sala, e até excursões. Nas escolas, ela tem acesso a um projetor. Mas ela comprou seu próprio computador e caixa de som para trabalhar com os alunos. Afinal, mesmo quando a escola tem o equipamento, há muitos professores para usar. Ela conta que a internet é bem instável, mas que este é um problema comum no bairro.

“O professor tem que fazer uma coisa mais prática, não pode ser só o ‘cuspe-giz’, você não pode chegar e só passar trabalho no quadro, principalmente para estes alunos específicos que já estão defasados, que já tem certa resistência à escola. A escola tem que ser mais atrativa e prazerosa.”

Veronica já fez iogurte em sala de aula e mostrou na prática como é possível ter uma alimentação saudável de baixo custo, já levou seus alunos para o Centro da Cidade e agora planeja levá-los a uma peça. “Eles não saem dessa região de Pedra de Guaratiba. Quando você sai e os leva para o centro da cidade, que fica a 65 km daqui, para eles conhecerem outro lugar, eles já saem como pessoas melhores, tanto em relação ao conteúdo quanto a de experiência.” Para realizar as excursões, ela depende de ônibus que façam o transporte dos alunos. Verônica está sempre correndo atrás de parcerias com instituições que forneçam o transporte, porque nem sempre é possível conseguir isto pela prefeitura.

Nas aulas do PEJA, a motivação dos alunos é diferente. Os alunos vão à aula depois de um dia inteiro de trabalho e estão ali porque realmente precisam daquela certificação. Verônica tem alunos até com mais de 70 anos. “Eu tenho 20 anos de município, e ainda não desisti de dar aula. O professor tem que buscar inovação; se houver apoio da direção, melhor ainda. Mas se a direção não se opuser ao que o professor fizer de diferente e ele tiver condições, oportunidade e vontade, é possível inovar de qualquer modo. O aluno vai sair melhor do que ele entrou.”

Conta de água na ponta do lápis

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No ano passado, na pequena cidade de Paraíba do Sul, no estado do Rio de Janeiro, uma professora da rede estadual ensinou matemática para o sexto ano a partir das contas de água dos alunos. Como ela tinha que falar sobre operações, poliedros, metro cúbico, gráficos e tabelas, ela achou que seria mais fácil para eles se partisse de algo do dia a dia, como a conta de água. Depois de uma análise inicial, os alunos viram quem gastava mais e quem gastava menos. Mas a professora Crystiani Mendes queria fazer mais, ela queria mostrar para eles que cada um tinha uma participação neste consumo.

Ela, então, convidou um funcionário da Companhia Estadual de Águas e Esgotos (CEDAE) para fazer uma palestra na escola sobre o desperdício de água. Os alunos, por sua vez, passaram a marcar quanto tempo levavam para tomar banho e deixavam a torneira aberta para escovar os dentes. Com as propagandas do “Esbanja e manera” da CEDAE, os alunos conseguiram fazer um cálculo proporcional de quanto de água estavam desperdiçando, criando gráficos e tabelas.

Cristyani também falou sobre o desperdício indireto. Ela queria diminuir o desperdício de alimento na hora da merenda, e consequentemente o gasto de água, como o usado para lavar os alimentos. O grupo então foi parar na biblioteca. Após a leitura de “Nicolau tinha uma ideia” de Ruth Rocha, os alunos, assim, como o protagonista do livro, começaram a ter ideias. A turma, no caso, pensou em formas de como reduzir o desperdício de água. O coordenador pedagógico gostou da proposta e expandiu a ideia de diminuir o desperdício indireto para toda a escola. Além de a escola conseguir reduzir a conta de água, ela foi uma das vencedoras do Atitude Rock in Rio, e assim alguns alunos mais velhos do colégio conseguiram ir ao festival de música.

A professora Cristyani Mendes, que também é coordenadora pedagógica da Secretaria de Educação de Paraíba do Sul, trouxe a matemática para o dia a dia dos alunos e ainda conseguiu construir neles uma consciência sócio-ambiental. Para fazer isso, ela não deixou os livros e os cadernos de lado, mas complementou o ensino até com desenho animado. “Eu gosto de trabalhar assim. Em tudo que a gente faz, eu acho que a gente tem que ser feliz.”

Estes são apenas alguns exemplos de professores que conseguem fazer do ensino uma atividade mais dinâmica e prazerosa. Os resultados são visíveis, os alunos interagem mais e a porcentagem dos que ficam em recuperação diminui consideravelmente. Apesar de a profissão de professor continuar a ser desvalorizada no país, estes profissionais mostram que ainda há esperança tanto no ensino quanto na aprendizagem. Uma lição e tanto para aprender e ensinar.

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